ARTIGO: Trabalho e bem viver

 ARTIGO: Trabalho e bem viver

Nunca tivemos tantas tecnologias capazes de substituir tarefas repetitivas e reduzir o esforço físico do trabalho. Ainda assim, vivemos em um estado de exaustão. Quanto mais aumenta a produtividade, mais acelerada se torna a vida. Quanto mais conectados estamos, menos tempo dedicado ao existir. O avanço técnico não está gerando tranquilidade coletiva. Ao contrário, produz ansiedade, hiperatividade e esgotamento. A vida além do trabalho não é livre, ela é capturada por estímulos incessantes, visualizações frenéticas de telas, notificações, vídeos curtos, excesso de informação e consumo permanente. O descanso já não repousa. E a nossa atenção está diuturnamente sendo disputada.

É justamente nesse contexto que a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 ganham importância histórica. Não se trata apenas de uma reivindicação econômica ou sindical, embora também seja. Trata-se de uma discussão sobre o bem viver. Nesse ponto, a experiência das mulheres pode oferecer contribuições fundamentais. Durante séculos, fomos associadas ao cuidado, muitas vezes para manter a opressão e alimentar a desigualdade. Mas talvez exista, dentro dessa experiência histórica, um aprendizado importante para o futuro: a valorização do cuidado, dos vínculos humanos e da construção coletiva da vida cotidiana. Nós podemos reconstruir a ideia de tempo livre não como vazio improdutivo gerador de culpa, mas como espaço de convivência, afeto, criação e comunidade. Em uma sociedade marcada pelo individualismo extremo, cuidar uns dos outros pode tornar-se um gesto profundamente transformador.

A juventude também carrega sinais dessa busca. Apesar de todas as contradições do presente, muitos jovens já demonstram certo esgotamento diante da lógica da competição permanente. Cresce o desejo por outras formas de satisfação: experiências coletivas, sociabilidade, cultura, pertencimento, saúde mental e qualidade de vida.

Talvez estejamos entrando em uma época em que o principal desafio da humanidade não seja mais produzir máquinas inteligentes, mas reconstruir relações humanas inteligentes. Uma sociedade mais livre é aquela que reaprende o verdadeiro significado do viver.

*Silvana Pirolli, presidente do Sindiserv

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