ARTIGO – Redução da jornada e o fim da escala 6×1: uma pauta das mulheres
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 ganhou tração no Brasil, e isso não é por acaso. Em meio ao avanço tecnológico e ao aumento da produtividade, cresce o questionamento sobre por que trabalhamos tanto e vivemos tão pouco. Mas há um aspecto fundamental que precisa ser colocado no centro dessa discussão: o impacto desigual do tempo de trabalho sobre a vida das mulheres.
Historicamente, as mulheres sempre trabalharam mais. Além da jornada formal, recai sobre nós a responsabilidade pelo trabalho doméstico e pelo cuidado com filhos, idosos e familiares. Essa dupla e muitas vezes tripla jornada produz um nível de exaustão permanente, com impactos diretos na saúde física e mental. A escala 6×1, nesse contexto, agrava ainda mais essa realidade, reduzindo drasticamente o tempo disponível para descanso, autocuidado e vida pessoal.
Os argumentos contrários à redução da jornada ignoram essa desigualdade estrutural. Quando se afirma que “não é o momento” ou que “os custos seriam elevados”, desconsidera-se o custo social e humano de manter um modelo de trabalho que adoece e sobrecarrega especialmente as mulheres. Não se trata apenas de uma questão econômica, mas de justiça social. O tempo é um recurso desigual na sociedade e as mulheres são as mais penalizadas por essa desigualdade.
Reduzir a jornada de trabalho e enfrentar a lógica da escala 6×1 é também uma forma de redistribuir o tempo de vida. Significa abrir espaço para que as mulheres possam estudar, participar da vida política, conviver com suas famílias e cuidar de si mesmas. Mais do que isso, cria condições para que o próprio trabalho doméstico e de cuidado possa ser mais compartilhado, tensionando uma divisão sexual do trabalho que ainda persiste.
O Brasil está diante de uma oportunidade histórica. Ao discutir a redução da jornada, não estamos apenas falando de economia ou produtividade, mas de que tipo de sociedade queremos construir. Uma sociedade mais justa passa necessariamente por reconhecer que o tempo de vida não pode ser privilégio de poucos. Reduzir a jornada e superar a escala 6×1 é dar um passo concreto para tornar o país mais humano e isso começa por aliviar a sobrecarga que há séculos recai sobre as mulheres.
*Silvana Pirolli, presidente do Sindiserv
Foto; CUT-RS





