Primeiro Ciclo de Debates aborda a desnaturalização dos processos de identidade de gênero

“Nós precisamos ter coragem para discutir questões como a de hoje, questões de gênero, vivemos a realidade de um país onde cada um de nós fará muita falta se não disser a que veio”. Com essa fala, a presidente do Sindiserv, Silvana Piroli deu as boas-vindas aos participantes do primeiro ciclo de debates, promovido pelo Sindiserv, em parceria com SINPRO e CPERS, na última terça-feira,(03/07), no auditório da entidade.

A primeira debatedora convidada, Paola Vargas Barbosa, Pós-doutora em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professora e coordenadora do curso de psicologia no Cesuca: Faculdade Inedi e Doutora em Psicologia pela UFRGS (2014), iniciou o debate pontuando que o ser humano tem dificuldade de lidar com o diferente. Por este motivo, tende a criar estereótipos evidenciando a necessidade de discutir o tema identidade de gênero . “Esse debate produz vida, inovação, criatividade e nos melhora enquanto sociedade”, afirma a professora.

“As questões de gênero constroem o que nós somos, é uma questão que atravessa e afeta a todos.”

De acordo com Paola, enquanto a sociedade continuar aceitando como algo inquestionável a realidade atual, não é possível desenvolver um pa de protagonista nesse processo. No entanto, se houver reflexão e compreensão que essas relações são construídas socialmente e historicamente, significa que é possível reconstruir o que for necessário a partir de relações mais igualitárias e mais diversas. “Um dos primeiros passos para avançar nas questões de gênero é desnaturalizar os processos”.

Destaca ainda que é preciso compreender as diferenças entre sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual e expressão sexual. Sexo biológico refere ao sexo que a pessoa nasce, que pode ser masculino ou feminino; identidade de gênero tem relação em como a pessoa se identifica ou se define, por exemplo, mulher que se identifica como mulher pode se considerar cisgênero, já uma mulher  que se identifica como homem denomina-se transgênero ; a orientação sexual tem a ver com quem o indivíduo se sente atraído, uma mulher que sente-se atraída por um homem é heterossexual; já uma mulher que sente atração por outra mulher é homossexual.  Já  a expressão de gênero está relacionada a como a pessoa se adequa a esses papéis sociais.

As questões de desejos homossexual, heterossexual, bissexual e as diversas variações, são usadas como parâmetro para a identidade e não para o sexo biológico. “O parâmetro é como eu me identifico, a expressão de gênero é como eu vivencio esses papeis”.

Porém, de acordo com a especialista, existe uma socialização geralmente baseada nos padrões dos sexos biológicos, além disso, o momento histórico é baseado num processo de construção de um papel social feminino, e isso afeta toda a sociedade. Os papéis tendem a ser estereotipados.  Dessa forma, uma mulher considerada cisgênero, poderia ser discriminada por não “representar o papel social” que a sociedade espera dela.

Paola diz que grande parte das discussões existentes na saúde, educação e em outros espaços de atuação dizem respeito a uma tentativa de forçar o sujeito a se enquadrar em papéis, comportamentos, expectativas  ou a desejos nos quais ele não tem controle. “Então há um cerceamento, porque ele se comporta fora do padrão de gênero”, completa.

“O que a gente pensa sobre essas questões, as representação que nós temos sobre essa temática constrói atitudes, identidades e comportamento. O que eu penso sobre a questão de gênero afeta como eu trato as pessoas com quem eu me relaciono, define se eu quero mudar ou não o meu comportamento”, enfatiza a psicóloga.

Por fim, Paola sugere que existe a possibilidade de transformar a realidade através de atitudes simples e com pequenas ações, dentro da sala de aula, em discussões nos espaços comunitários e em outros ambientes em que seja possível essa discusão. Ensina que construir um processo de desnaturalização e engessamento dos papeis de gênero, produzir caminhos a partir da luta pela liberdade de escolha para homens e para mulheres, isso precisa ser um discussão de todos. “A diversidade tem que possibilitar  às pessoas poderem escolherem aquilo lhe faz bem. A produção de liberdade tem que ser para abrir as opções de escolhas e não para impor sobre as pessoas a escolha que é da vez”, finaliza.

A psicóloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres, (MMM), Fabíola Zeni Papini também contribuiu com o debate abordando a trajetória da caminhada em que está inserida na Marcha. De acordo com ela, a Marcha é sinônimo de resistência e alternativa para a construção um novo mundo.  “Lutamos para que enquanto mulheres que sofrem opressão no mundo, assim como negros e negras, lgbts, camponeses, classes trabalhadoras, esse sujeitos possam ter um espaço para debater e resistir”.

Fabíola apresentou e contextualizou um pouco sobre qual o papel da MMM em Caxias do Sul. “Mulheres em movimentos mudam o mundo, o educativo da e na MMM possui uma série de atividades  como rodas de conversas, ensaios da batucada, a criação de cancioneiros para manifestações e atos, reuniões, participação em jornadas e encontros, seminário, congressos e simpósios, tudo isso através da partilha e do aprendizado coletivo”.

Problematizar a própria forma e como se sentem nos espaços públicos, essas são algumas estratégias usadas para amplificar a voz e reivindicar seus espaços de direito. De acordo com a integrante da Marcha, o objetivo principal é construir  experiências concretas e coletivas, condições para alterar a desigualdade de gênero, econômica, racial, e social, lutando contra os malefícios que alguns setores da sociedade produzem.

“Lutamos para que as mulheres sejam respeitadas e estejam em pé de igualdade. A gente constrói consciência falando e debatendo sobre isso. Queremos construir um novo anúncio e uma nova sociedade,” Finaliza.

O próximo ciclo ocorre no 31 de agosto, com o professor Gaudêncio Frigotto, que falará sobre a educação no momento atual. Na última palestra do ciclo que ocorrerá dia 19 de outubro, a professora Helenir do CPERS falará sobre o trabalho d@s professor@s nos dias atuais. O evento é gratuito para os associados,  para não sócios haverá o custo de R$ 40,oo cada palestra. As  Inscrições podem ser feitas pelo telefone (54) 3228-116o ou diretamente no Sindicato.

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