Para Jessé Souza, as ideias não são neutras e movem a sociedade

O sociólogo e escritor palestrou no dia 19, no auditório do Sindiserv

 Para Jessé Souza, as ideias não são neutras e movem a sociedade

Convidado pelo Sindiserv e pelo Sinpro/Caxias para palestrar em Caxias do Sul, Jessé Souza falou para o auditório lotado na noite de 19 de junho, apreciando estar na cidade: “Em uma sociedade onde tudo é indireto, esse contato para mim é muito importante.”

Na abertura do encontro, Cristiano Cardoso, diretor de Formação do Sindiserv, relatou parte de sua história pessoal, explicando como políticas públicas mudaram a sua vida. “Não existe meritocracia, mas políticas públicas realizadas por governos e pelos servidores públicos, que estão sempre na linha de frente”, destacou.

Disputa de ideias

Jessé Souza, sociólogo, escritor e ex-professor, buscou “recuperar as linhas do passado da nossa sociedade e depois ligá-las ao momento atual a partir da expansão da extrema direita mundial”, conforme suas próprias palavras.

O palestrante observou que grande parte dos pensadores brasileiros de crítica social, desenvolvem uma interpretação elitista e machista. “As ideias dominantes no Brasil são as da classe dominante. A esquerda precisa disputar as ideias hegemônicas, pois é onde começa toda a luta política”, explicou. “As pessoas não percebem a influência das ideias e que elas, e a produção delas, são o ponto social mais importante pra sociedade e seu possível desenvolvimento”, destacou em outro momento da palestra, analisando a apropriação, por parte das elites, dos meios de comunicação, ou seja, da produção simbólica das ideias.

Desigualdade e racismo persistem no Brasil

Jessé desvendou os interesses por trás do enfraquecimento do Estado. Para ele, o Estado é criminalizado por ser a única instância que pode fazer frente ao “mercado”. Criticou o prejuízo causado à população brasileira pelo Banco Central, com a decisão pelos altos juros.

Falou sobre a questão da corrupção, dizendo que a elite precisa do Estado para “organizar o roubo”, enquanto o povo brasileiro pobre é taxado de corrupto – lembrou da expressão “jeitinho brasileiro” – com o objetivo de ser animalizado, depreciado em sua humanidade.

Destacou a herança da escravidão na sociedade brasileira, em todas as instâncias da vida: na economia, na política e até na família. “A teoria dominante hegemônica do brasil é intrinsecamente racista, trocando o racismo explícito pelo cultural”, disse Jessé. “As classes sociais que dominavam na escravidão perduram até hoje”, completou. Para ele, o direito penal brasileiro foi criado para coibir toda a cultura negra, desde a religião, a música etc.

Sobre o tema da palestra, SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO: Trabalho, Conhecimento e Qualidade de Vida no Século XXI, Jessé lembrou que trabalho, conhecimento e qualidade de vida são garantidos “para os 20% que estão lá em cima e nunca para os 90% que são pobres” e isso não é um fenômeno natural, é um projeto de dominação.

Jessé Souza enfatizou a importância da democratização do conhecimento: “Ou você é estimulado a estudar ou você não tem pensamento prospectivo, não tem futuro”, finalizou. Ao mesmo tempo, defendeu a importância da pluralidade de opiniões e da democratização da informação.

Após a palestra, o autor de A Elite do Atraso, A Ralé Brasileira e O Pobre de Direita, entre outros títulos, respondeu perguntas dos participantes e autografou livros.

Na próxima edição do Corrente, o Sindiserv apresentará uma entrevista realizada com Jessé Souza.

Fotos: Gabriel Lain

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