“A discussão do retorno às aulas não foi feita com a comunidade”, diz o epidemiologista Pedro Hallal

O Sindiserv, em conjunto com 14 sindicatos que fazem parte do Movimento em Defesa da Vida e da Educação, que luta por testagem, vacina e retorno às aulas presenciais com segurança, transmitiu na tarde desta quarta-feira (17), o painel com o epidemiologista, pesquisador e ex-reitor da UFPel, Pedro Hallal, com o tema RETORNO DAS AULAS PRESENCIAIS COM PLANEJAMENTO E PROCEDIMENTOS?. O encontro foi mediado pela presidente do SPMG/Sindicato, Vitalina Gonçalves e a representante do Sisme, de Esteio, Graziela Oliveira,  e ressaltaram que esta é uma atividade de formação e que a luta unificada entre as entidades é para que o prazo de retorno seja ampliado, as testagens sejam amplamente realizadas e que os protocolos sejam construídos de forma participativa. Veja como o especialista enxerga o assunto:

Em que estágio da Pandemia estamos?

Eu achei que a Pandemia seria mais curta. O vírus chegou em todas as partes do mundo. O que aconteceu após a chegada do vírus é que diferencia os países. A Coréia, por exemplo, testou todos os sintomáticos, a Nova Zelândia fechou as fronteiras. A estimativa que temos hoje é que de quatro mortes no Brasil, três poderiam ter sido evitadas. No início da pandemia, o Norte do Brasil foi a região mais afetada. Uma em cada quatro pessoas testava positivo, enquanto aqui, no Rio Grande do Sul, esse parâmetro era de uma para cem pessoas.

Desigualdade étnico-racial

No decorrer da pesquisa, percebemos que os índios tinham cinco vezes mais chance de contrair a doença em relação aos brancos e os negros se infectavam duas vezes mais. Como não é um fator genético, entendemos que existe um fator de vulnerabilidade. As famílias mais pobres têm mais gente morando próximo, maior aglomeração e menos acesso às medidas de proteção.

Volta às aulas em quais condições?

Acho que existem dois extremos. O primeiro é o negacionista que diz que as escolas não deveriam ter fechado, isso é uma bobagem. O outro extremo é o que diz que só pode voltar quando todos estiverem vacinados, esse também não é correto.  O epidemiologista precisa fazer uma conta difícil que é calcular os riscos de ficar em casa ou ir à escola. A volta deve acontecer quando a epidemia está em uma curva decrescente, com evidências e protocolos que saibam lidar com o que pode acontecer, por exemplo, uma criança com sintomas, o que fazer?

O prejuízo das crianças em aula remota é maior que o presencial. O retorno será como tirar a rodinha da bicicleta, o começo vai ser ter alguns tombos, mas é necessário. Nós vamos ter infectados quando retornar, claro que sim, mas precisamos pensar nos protocolos, é momento de planejar um retorno, que é para alguns dias. O problema é que são protocolos ruins.

O quê fazer?

Os protocolos da Indústria e Comércio tiveram mais energia aplicada que as escolas. A comunidade escolar não participou do processo de retorno, não foram feitas as discussões e o público não se sente seguro e tampouco corresponsável. A comunidade escolar terá que participar disso, corrigindo as falhas no decorrer do período.

Testagens

A sensação é que tem um grupo de gestores que não querem investir em testes, pois não querem se sentir negligentes ao constatar o aumento no número de casos. Testar é fundamental. Se um aluno tiver sintomas clássicos como perda de olfato e paladar, os colegas devem ser testados imediatamente. O Brasil está entre os últimos em relação a isso.

Respeito aos protocolos

O modelo das bandeiras foram desmoralizados. Foi politizado com a intervenção dos prefeitos. É algorítmico, ninguém quis alterar do vermelho para o preto, quando as condições estavam ruins. Só se viu prefeito tentando transformar vermelho em laranja. A partir de setembro, a média de contaminação foi acelerando. O problema da pandemia depende do que fizermos amanhã. Não está perto de ser controlada, e se continuarmos tomando medidas equivocadas tende a piorar.

A incompetência acontece quando uma empresa oferece 70 milhões de doses e o governo recusa, isso é grave. Defendo que o professor entre nos grupos prioritários, mas o problema não é só com professor, a preocupação é com a cadeia toda.  Existe desigualdade na aplicação no mundo e quem está atrapalhando é o governo federal.

Nenhum protocolo é 100% seguro, mas não ter aula também não é seguro, especialmente as crianças em situação de vulnerabilidade social. Não podemos trabalhar para ampliar a desigualdade. Precisávamos que os gestores organizassem protocolos mais participativos.

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