Seminário de Letramento Racial discute racismo na sociedade
O Sindiserv reuniu dezenas de servidores durante o I Seminário de Letramento Racial nesta segunda-feira, 26. No tema central da atividade, o racismo, suas formas de manifestação e as estratégias de enfrentamento no serviço público e na educação. Conforme a diretora de Diversidade, Maurisseia dos Reis Nunes, o objetivo do evento foi ampliar o conhecimento sobre as diferentes formas de manifestação do racismo e fortalecer a construção de práticas antirracistas, especialmente nos espaços públicos e educacionais.
Joelma Couto Rosa, Mestra em Educação, especialista em psicopedagogia clínica e institucional, abordou as políticas públicas e ações afirmativas. Ela destacou as Leis 10.639 e 11.645, que estabelecem a inclusão da história e da cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar. Durante desta segunda, ela apresentou a linha do tempo das políticas afirmativas na sociedade e deu destaque às ações em Caxias do Sul.
“Existe uma discussão ainda muito grande em relação à importância das cotas. Nós, enquanto população preta, enquanto pessoas negras, não partimos do mesmo lugar em relação à população branca. As cotas são uma forma de reparação mas precisamos de muito mais ações afirmativas“, disse. “Se a gente pegar a história vamos chegar aqui no território de Caxias do Sul e ver que pessoas que vieram da Europa receberam condições para ter uma vida digna e uma das condições foi a concessão de terras pelo Estado brasileiro. Essa foi uma política pública específica para essa população que veio para o Brasil e teve condições para trabalhar e construir sua vida de maneira digna. Coisa que a população negra não teve acesso“, recordou.
O letramento racial na aprendizagem de crianças e adolescentes foi o tema da exposição de Bruna Bembom, do setor pedagógico da SMED. Conforme Bruna, o letramento racial é fundamental para compreender como o racismo está presente na sociedade e como ele influencia a formação das pessoas. Durante a vida, todos enfrentam dificuldades, mas nem todos têm os mesmos privilégios. Quando alguém afirma que não vai deixar de ser racista porque considera o assunto “mimimi”, demonstra o privilégio de poder ignorar um problema que afeta diretamente a vida de milhões de pessoas. Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, pessoas brancas muitas vezes não enfrentam questionamentos ou consequências por suas atitudes discriminatórias, enquanto a população negra convive diariamente com barreiras e desigualdades.
Já, Ari Santos Silva, servidor da Secretaria de Obras e Saneamento, falou sobre o racismo estrutural e institucional. “Já paramos pra pensar algumas vezes quanto do efetivo dos mais de 6000 servidores que somos, quantos desses são negros e estão ocupando espaços de decisões? Quantos de nossos filhos negros vão ter esses espaços, ainda dentro desse dentro do serviço público? Quando eu fui convidado para chefiar as equipes que eu chefio hoje me falaram que eu estava na cota. Eu sou o da cota, muitos falam isso“, apontou. E complementou: “o racismo entrou ali dentro porque é estrutural e organizado e porque não tem espaço para o diálogo dentro desses ambientes de trabalho“, disse. Ari também classificou Caxias do Sul como uma cidade avançada ao debater as questões raciais em seminários como o promovido pelo Sindiserv. “O serviço público regride quando o ambiente tem ataque racial“, finalizou.
Na sequência, Charles Santos falou sobre o papel do Conselho Municipal de Educação (CME), as estratégias de controle social e a importância do monitoramento e da articulação institucional para o combate ao racismo na rede escolar. O professor fez um resgate histórico do tema e reforçou o apagamento histórico da população negra e a reprodução de estereótipos no ambiente escolar. Charles relatou também sua surpresa ao descobrir, durante a formação acadêmica, que Nilo Peçanha, presidente do Brasil entre 1909 e 1910, era negro. Ao buscar informações em materiais didáticos da época, percebeu diferenças entre as representações de figuras históricas negras e seus registros fotográficos, citando também o escritor Machado de Assis. Para o educador, esses exemplos evidenciam como o racismo estrutural contribui para a invisibilidade e o apagamento cultural da população negra. “Sou apaixonado por história e professor há mais tempo e não tive na minha graduação uma cadeira específica sobre história e cultura africana, afrobrasileira. Minha graduação foi antes de 2003 e essa é uma das questões que a gente precisa discutir“, disse.



























