Engajamento e consciência na arte de ensinar

Caren Daiane da Silva, 37 anos, professora da rede pública municipal há oito anos, tem uma missão que vai além do conteúdo das séries iniciais e das aulas de história para os alunos de 5º ao 9º ano. A servidora é também uma agente transformadora e inspiradora para muitas crianças e adolescentes ao inserir em seu trabalho questões como respeito à diversidade, luta pelos direitos e busca por um mundo justo e igualitário.

Quando foi nomeada há oito anos, um misto de preocupação e ansiedade tomou conta de Caren. “Tive medo de não dar conta, mas aos poucos fui percebendo meu papel, de tomar a frente em muitas questões e promover discussões que fazem a diferença na vida de muitas crianças. Nem sempre conto com o apoio que necessito, me sinto sozinha às vezes, mas não desisto”, conta.

Militante não só do Movimento Negro, mas também do combate à violência contra a mulher e outras frentes sociais, suas aulas vão além do universo do alfabeto e história. As ações da professora servem de incentivo para os alunos discutirem seu papel na sociedade. Segundo dados do Disque 100, que acolhe denúncias contra os direitos humanos, houve um crescimento de 250% de registros no último ano, relacionados à discriminação racial. “A partir da criação de leis específicas que tem como objetivo a eliminação das distâncias acentuadas pela discriminação racial, como a lei de cotas, a legislação que leva a história e cultura africana e afro brasileira para dentro do contexto escolar, a sociedade, composta por uma maioria de afro descendentes, tem tomado consciência do importante papel que sempre exerceram, e dos direitos que sempre lhes foram negados. Estes movimentos de conscientização, tem, em contrapartida, provocado o descontentamento de esferas da sociedade que não querem perder alguns privilégios a eles garantidos, colocando-se, na maioria das vezes, contrários e agravando ainda mais os problemas que afetam a população negra”, salienta.

“O papel do servidor público na valorização da diversidade, segundo Caren é primordial no combate ao preconceito. “Como servidora que atua com crianças e adolescentes, muitas vezes, oriundas da periferia e de esferas colocadas à margem da sociedade, percebo que elas acabam se identificando com as mesmas questões que eu. Creio que sirvo como uma espécie de espelho onde elas enxergam a possibilidade de serem atuantes para um mundo melhor”, observa. Por outro lado, o serviço público deve estar cada vez mais capacitado para atuar com estas questões. “Muitas vezes o profissional da saúde, não consegue identificar doenças específicas dos negros. Isso acontece porque não existem políticas públicas relacionadas à conscientização dos grupos étnicos.”

Outro apontamento realizado pela professora, diz respeito às questões culturais de Caxias do Sul. “Ainda existe o entendimento que na Serra Gaúcha, prevalece uma colonização de origem única que é de origem europeia, quando na verdade temos uma miscigenação muito forte e a cidade não valoriza essa questão. No serviço público existe uma inércia quanto a isso, o que configura um problema, pois quem está à frente das questões da diversidade dessas questões é a iniciativa privada”, lamenta.

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