Quanto mais caímos, mais nos afundamos

O Brasil contradiz os que afirmam que a crise traz as chaves que abrem as portas das oportunidades. No nosso caso, quanto mais caímos, mais nos afundamos e as trevas se intensificam em um poço que parece não ter fim.

Sob aplausos de entidades empresariais, em 2017 os congressistas aprovaram a reforma trabalhista com a promessa de que teríamos mais empregos. Aconteceu o que prevíamos. As taxas de desemprego não baixaram. Antes da pandemia, segundo dados oficiais, tínhamos 12 milhões de desempregados e 26 milhões de trabalhadores subutilizados sobrevivendo na correria com bicos irregulares e renda incerta.
Ou mudavam as regras da aposentadoria ou não haveria crescimento do PIB, chantageou o presidente recém-saído das urnas de 2018. A reforma da Previdência foi aprovada com manifestações histéricas de euforia. No entanto, o PIB respira com auxílio de aparelhos com claros sintomas de recessão.

Em meio a pandemia, segmentos importantes do empresariado ajustam seus negócios livrando-se de seus “colaboradores”. Armados até os dentes com medidas provisórias, emendas constitucionais e decretos, estão autorizados a demitir, reduzir jornada, achatar os salários sem sofrer fiscalizações de órgãos públicos e sem temer a Justiça do Trabalho. Terceirizados, temporários, informais, os empreendedores de si mesmo, o grupo de risco da epidemia econômica, estão sendo dispensados sem compaixão.

Fala-se que estamos em guerra. Porém, nessa guerra, quem trabalha está no campo de batalha sem armas, sem munição, sem mantimentos e sem saber para onde correr. Em breve, o desemprego atingirá os níveis de 20% e a subocupação explodirá. Tanto o governo quanto os empresários são incapazes de entender que o desemprego e a redução dos custos do trabalho, que tanto buscam, afetam diretamente o poder de compra da população e sufocam a produção das empresas, provocando um círculo vicioso de crise econômica e social com desfecho imprevisível e temeroso.

Amarildo Cenci
Professor e presidente da CUT-RS

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